terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Conclusão carnavalesca

Além de um tipo poder pôr uma cabeleira loira e uns artefactos no peito, e fingir que está a fingir ser o que não é, o carnaval é um verdadeiro Natal para o funcionalismo público: segunda-feira ninguém trabalha e na terça é "feriado".

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Alice Vieira em entrevista

(...)
A escola pública está a perder qualidade?
Há um desinteresse, um cansaço e depois há o problema da formação. Não quero generalizar, mas esta gente mais nova... Qual é a preparação que tem? Converso com professores e é um susto, desde a língua portuguesa, tratada de uma maneira desgraçada, até ao desconhecimento dos autores. Sabem muito de eduquês, mas passar além disso é difícil. Muitos professores têm uma formação muito, muito, muito deficiente. Não só falam mal como se queixam diante dos miúdos. A responsabilização dos professores é fraca, eles não são muito seguros e os alunos sentem-no.
É por isso que há atitudes de indisciplina e violência?
As manifestações dos miúdos também me perturbam, porque não sabem o que andam ali a fazer. Eles devem é aprender a falar bem, para saber reclamar, reivindicar.
Nesse caso a culpa não é da escola...
Também é. Os professores queixam-se que têm de ser pai, mãe, assistente social, educadores... Pois têm! Porque a vida dos miúdos é na escola. Em casa não lhes dão as mínimas noções de educação, o simples "obrigada, se faz favor, desculpe". Mas quando os alunos vêem os professores na rua, a berrar e a gritar, o que é que pensam?
Não concorda com o uso das novas tecnologias?
Estamos a queimar etapas, a atirar computadores para o colo de miúdos quando não sabem ler nem escrever. Só devia chegar quando tivessem o domínio da língua e da escrita. Os mais velhos não sabem utilizar a Internet, não sabem pesquisar. Copiam e assinam por baixo. O professor tem que ensinar a pesquisar. Às vezes estou a falar e tenho a sensação nítida de que os alunos não estão a perceber nada do que estou a dizer.
Essa sensação é generalizada?
No geral, as crianças têm muitas, muitas dificuldades. E os professores, logo à partida, têm medo que os alunos se cansem e nem tentam. "O quê? Dar isso? Eles não gostam, cansam-se". Há medo de cansar os meninos. Desde 1974 que os alunos têm sido muito cobaias do ministério. Aconteceu uma coisa terrível na Educação: tudo tem de ser divertido, tudo tem de ser lúdico, nada pode dar trabalho. Não pode ser.
É preciso mudar a mensagem?
Quando vou às escolas, esforço-me por transmitir aos alunos que as coisas dão trabalho, mas os próprios professores passam a mensagem de não querer ter trabalho. Quando vou ao estrangeiro, vejo os professores e penso: "Se fosse em Portugal, não era assim". Fazem o que for preciso. Cá dizem que não é da sua competência. A educação é daquelas matérias em que, se calhar, são precisas medidas impopulares. Nunca houve um ministro de quem se diga: "Fez".
Mais disciplina?
Mais autoridade, o professor não tem autoridade nenhuma. A solução passa por mais interesse e mais disciplina. O professor tem que sentir gosto pelo que faz e transmiti-lo. Não é uma profissão como as outras e não é seguramente a de preencher impressos. (...)

Entrevista de Alice Vieira, realizada por Bárbara Wong, "Aconteceu uma coisa terrível na Educação: tudo tem de ser divertido, nada pode dar trabalho", jornal Público, 19 de Janeiro de 2009, p. 3.

Armadilhas da avaliação

Acabo de ouvir uma entrevista na France Culture a Maya Beauvallet, economista e autora de As Estratégias absurdas - como piorar pensando que se melhora. Partindo de 12 histórias Beauvallet mostra que a avaliação do desempenho pode ter consequências desastrosas, originando uma pioria dos resultados. Uma das histórias relata um caso de gestão hospitalar nos Estados Unidos. Depois de ter sido estudada a mortalidade no bloco operatório do coração foram estabelecidos limites mensais para os óbitos durante as operações. Os médicos "melhoraram" os seus desempenhos, respeitando os limites, mas aumentou o número de doentes que morriam à espera de operação... A autora indica que estudos empíricos têm revelado um efeito perverso das avaliações, baseadas em análises comparativas: a redução da cooperação. Para conseguir uma avaliação melhor, diminuo a colaboração que dou a colegas... e os resultados gerais diminuem. No final da entrevista um jornalista pergunta "On fait quoi docteur?". Beauvallet observa que o gestor tem de analisar o que se passa efectivamente no terreno, estudando o funcionamento da organização. A avaliação do desempenho não é fácil.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Uma dúvida capital...

Fará sentido um Professor Contratado fazer greve na 2ª feira, sendo que já entregou os seus Objectivos Individuais ao Conselho Executivo?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Honey!

Fui visitar uma feira com uma turma. Fomos recebidos pelo seu responsável, que nos explicou a organização do mercado, interpelou vários feirantes e respondeu às perguntas dos alunos. A um dado momento perguntei-lhe se havia algum apicultor presente. Ele respondeu-me que não. O A. ouviu a pergunta e, no dia seguinte, presenteou-me com um frasco de mel, produção caseira! Muito, muito simpático.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Forte e feio!

Leram a revista Sábado da semana passada? É altamente corrosiva para os professores. Acho que não há link disponível.
Basicamente é argumentado que os professores não combatem a indisciplina, estando dispostos a condutas indignas dos alunos. Os professores não querem é que esse estado de coisas seja do conhecimento geral, e por isso pretendem uma "tolerância zero" para os telemóveis. As imagens são o inimigo dos professores, e não a ausência de disciplina dos meninos...

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A Internet sucks!


Nalguns momentinhos de "socialização" os alunos estão na sala de aula e gozam de acesso livre a computadores com ligação à Internet. O que observamos nessas alturas?

As meninas entram no Youtube para ouvir música, os rapazes vêm palhaçadas no Youtube, há um ou outro adepto do Googlearth, mas sobretudo os rapazes jogam - são disparados milhares de tiros contra terroristas. A Internet não é consultada.

A Internet faz-me pensar numa enciclopédia popular e de acesso muito simples - basta clicar para encontrar inúmeras páginas sobre inúmeros temas. Mas quando penso na minha própria escolaridade longe dos computadores e da Internet, lembro-me que raramente utilizei enciclopédias. Lembro-me de um trabalho que fiz no Secundário em que as utilizei. Mas pouco mais. Ou seja, não é de estranhar que um aluno normalíssimo não tenha o reflexo de procurar informação on-line tendo, isso sim, uma visão lúdica da coisa: jogos, música, palhaçadas.

O enlevo pela Internet relativamente à educação dos meninos do básico e do secundário é disparatado. O software pedagógico será sempre mais aborrecido do que executar terroristas ou ouvir música. O computador é lúdico e não é um professor numa sala com 25 ou 28 meninos que vai contrariar a ideia. Os alunos "sabem" mais de computadores do que o professor e ninguém o vai ouvir. Associo sempre o óptimismo ministerial pelos computadores à crítica de Manuel Castells: os governantes elegem os computadores para encher os olhos dos cidadãos porque é muito mais barato e fácil do que resolver os verdadeiros problemas da educação, da saúde, da justiça,...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A turma...

Ao ver o filme de Laurent Cantet percebi melhor o entusiasmo de Daniel Sampaio pelo filme - realmente o professor/protagonista desdobra-se para "chegar" aos alunos, fazendo apelo à sua cultura para conduzir (seduzir?) a turma. Algumas notas: A "aflição" do professor quando faz a contabilidade do tempo perdido - 5 minutos para entrar, 5 para sentar, 5 para começar a trabalhar - reflectindo que noutros escolas mais organizadas isso não se passa, deve ser comum à maioria dos professores portugueses; a confusão da turma reduz o trabalho realizado - e parece que apenas podemos aspirar a um contributo para a socialização do aluno; as aulas no liceu francês duram 60 minutos e não o massacre dos 90 minutos portugueses; apesar da confusão do ambiente da aula, quase sempre os alunos levantam o braço para pedir a palavra, aguardando a licença do professor; os procedimentos administrativos parecem mais simples do que os nossos e o director do liceu dirige a reunião de notas; não existem estruturas na Escola para gerir os casos dos alunos dificeis - funcionando apenas a força regularizadora da ameaça de expulsão. Um último aspecto é o tratamento por tu - o professor trata os alunos por tu, exige que seja tratado por "vous" e há uma crise quando um aluno o trata desrespeitosamente por tu... Tenho lido que está em discussão em França o tratamento por tu dado aos alunos.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A greve numa voz popular

Num café um sujeito dizia para o amigo (e para toda a gente na vizinhança de 10 metros, onde calhava encontrar-me): "Isto é uma vergonha, uma vergonha, os professores a fazerem greve! Ganham seiscentos contos para ensinar o aeiou e querem o quê? Trabalham 12 horas por semana para ensinar o aeiou, e ganham seiscentos contos. Seiscentos contos! São os professores que mais ganham na OCDE, só são batidos pelos alemães." E repetia, "para ensinar o aeiou ganham seiscentos contos".

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Greve

Aderi à greve. A economia cresce poucochinho, a retracção demográfica tira alunos ao sistema escolar, Portugal fica malzinho nos PISA periódicos - não é de esperar grandes milagres nas condições de trabalho e de remuneração dos professores. Mas isso não implica que o Ministério massacre os professores com um sistema de avaliação chatinho e de resultados mais do que incertos relativamente à melhoria do ensino.

Num dia de luta fica uma palavra de mea culpa: falta profissionalismo no sistema de ensino. O ano passado vi uma professora que não tinha feito greve a insurgir-se contra uma aluna que, ao invés dos outros colegas, tinha aparecido para ter aulas. "O que fazes aqui?", perguntou a professora. A aluna foi despachada rapidamente e a colega regressou à sala dos professores. Este ano, fui recambiado da biblioteca da escola: "senhor professor o que faz aqui?" Perguntou a funcionária, admirada de me encontrar na biblioteca sentado em frente ao computador. "A biblioteca está fechada!". Que eu saiba a greve é apenas dos professores...

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O impasse da escola actual...

"O impasse da escola actual resulta de se encontrar esgotado o modelo tradicional de ensinar, organizado para instruir o aluno médio e com razoável motivação". O professor precisa de se reinventar, para conseguir "mexer" com o aluno sem motivação e que desdenha da escola. Neste jogo o professor coloca-se "num nível diferente, porque usa o diálogo, a ironia e a provocação da gente nova como um meio de relacionamento, sem esquecer que o respeito recíproco é um dos ingredientes essenciais para ser ouvido". As citações são da crónica do Dr. Daniel Sampaio, "A(s) turma(s)" (revista Pública, 9 de Novembro de 2008, p. 4) . Daniel Sampaio ficou entusiasmado com o filme A Turma de Laurent Cantet. "A heterogeneidade da turma do filme parece ser fonte de inspiração para o docente, que consegue com mais ou menos sucesso relacionar-se com todos, na procura constante de soluções para uma das tarefas funcamentais da escola de hoje: a da inclusão. O professor Bégaudeau mostra como a preocupação em incluir é a única forma de percorrer na escola um caminho de dignidade, porque por certo já chegou à conclusão de que todos os alunos têm capacidade de contribuir para a respectiva aprendizagem". As reflexões do Dr. Daniel Sampaio são sempre estimulantes, embora no tempo da revista Xis tivessem um pequeno pendor lamechinha.

Manifestação

Quatro quintos dos professores portugueses desfilaram pela Avenida da Liberdade em Lisboa, no sábado passado, em desacordo com a Ministra da Educação. Cento e vinte mil professores marcaram presença em Lisboa. Eu andei por lá com os colegas da Escola. O Ministério trata mal os professores. Há um desgastante ambiente de guerra civil entre professores e Ministério. Os sindicatos - parece - são parcos em propostas construtivas. Acho que deveria ser exigente o acesso à profissão. O trabalho que se desenvolve com os alunos exige uma formação excelente dos professores. E o Ministério deveria antecipar problemas, propôr soluções, e proporcionar condições para os professores evoluirem - em vez de inventar sistemas em que ninguém se entende.