(...)
A escola pública está a perder qualidade?
Há um desinteresse, um cansaço e depois há o problema da formação. Não quero generalizar, mas esta gente mais nova... Qual é a preparação que tem? Converso com professores e é um susto, desde a língua portuguesa, tratada de uma maneira desgraçada, até ao desconhecimento dos autores. Sabem muito de eduquês, mas passar além disso é difícil. Muitos professores têm uma formação muito, muito, muito deficiente. Não só falam mal como se queixam diante dos miúdos. A responsabilização dos professores é fraca, eles não são muito seguros e os alunos sentem-no.
É por isso que há atitudes de indisciplina e violência?
As manifestações dos miúdos também me perturbam, porque não sabem o que andam ali a fazer. Eles devem é aprender a falar bem, para saber reclamar, reivindicar.
Nesse caso a culpa não é da escola...
Também é. Os professores queixam-se que têm de ser pai, mãe, assistente social, educadores... Pois têm! Porque a vida dos miúdos é na escola. Em casa não lhes dão as mínimas noções de educação, o simples "obrigada, se faz favor, desculpe". Mas quando os alunos vêem os professores na rua, a berrar e a gritar, o que é que pensam?
Não concorda com o uso das novas tecnologias?
Estamos a queimar etapas, a atirar computadores para o colo de miúdos quando não sabem ler nem escrever. Só devia chegar quando tivessem o domínio da língua e da escrita. Os mais velhos não sabem utilizar a Internet, não sabem pesquisar. Copiam e assinam por baixo. O professor tem que ensinar a pesquisar. Às vezes estou a falar e tenho a sensação nítida de que os alunos não estão a perceber nada do que estou a dizer.
Essa sensação é generalizada?
No geral, as crianças têm muitas, muitas dificuldades. E os professores, logo à partida, têm medo que os alunos se cansem e nem tentam. "O quê? Dar isso? Eles não gostam, cansam-se". Há medo de cansar os meninos. Desde 1974 que os alunos têm sido muito cobaias do ministério. Aconteceu uma coisa terrível na Educação: tudo tem de ser divertido, tudo tem de ser lúdico, nada pode dar trabalho. Não pode ser.
É preciso mudar a mensagem?
Quando vou às escolas, esforço-me por transmitir aos alunos que as coisas dão trabalho, mas os próprios professores passam a mensagem de não querer ter trabalho. Quando vou ao estrangeiro, vejo os professores e penso: "Se fosse em Portugal, não era assim". Fazem o que for preciso. Cá dizem que não é da sua competência. A educação é daquelas matérias em que, se calhar, são precisas medidas impopulares. Nunca houve um ministro de quem se diga: "Fez".
Mais disciplina?
Mais autoridade, o professor não tem autoridade nenhuma. A solução passa por mais interesse e mais disciplina. O professor tem que sentir gosto pelo que faz e transmiti-lo. Não é uma profissão como as outras e não é seguramente a de preencher impressos. (...)
Entrevista de Alice Vieira, realizada por Bárbara Wong, "Aconteceu uma coisa terrível na Educação: tudo tem de ser divertido, nada pode dar trabalho", jornal Público, 19 de Janeiro de 2009, p. 3.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Armadilhas da avaliação
Acabo de ouvir uma entrevista na France Culture a Maya Beauvallet, economista e autora de As Estratégias absurdas - como piorar pensando que se melhora. Partindo de 12 histórias Beauvallet mostra que a avaliação do desempenho pode ter consequências desastrosas, originando uma pioria dos resultados. Uma das histórias relata um caso de gestão hospitalar nos Estados Unidos. Depois de ter sido estudada a mortalidade no bloco operatório do coração foram estabelecidos limites mensais para os óbitos durante as operações. Os médicos "melhoraram" os seus desempenhos, respeitando os limites, mas aumentou o número de doentes que morriam à espera de operação... A autora indica que estudos empíricos têm revelado um efeito perverso das avaliações, baseadas em análises comparativas: a redução da cooperação. Para conseguir uma avaliação melhor, diminuo a colaboração que dou a colegas... e os resultados gerais diminuem. No final da entrevista um jornalista pergunta "On fait quoi docteur?". Beauvallet observa que o gestor tem de analisar o que se passa efectivamente no terreno, estudando o funcionamento da organização. A avaliação do desempenho não é fácil.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Uma dúvida capital...
Fará sentido um Professor Contratado fazer greve na 2ª feira, sendo que já entregou os seus Objectivos Individuais ao Conselho Executivo?
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Honey!
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Forte e feio!
Leram a revista Sábado da semana passada? É altamente corrosiva para os professores. Acho que não há link disponível. Basicamente é argumentado que os professores não combatem a indisciplina, estando dispostos a condutas indignas dos alunos. Os professores não querem é que esse estado de coisas seja do conhecimento geral, e por isso pretendem uma "tolerância zero" para os telemóveis. As imagens são o inimigo dos professores, e não a ausência de disciplina dos meninos...
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
A Internet sucks!
Nalguns momentinhos de "socialização" os alunos estão na sala de aula e gozam de acesso livre a computadores com ligação à Internet. O que observamos nessas alturas?
As meninas entram no Youtube para ouvir música, os rapazes vêm palhaçadas no Youtube, há um ou outro adepto do Googlearth, mas sobretudo os rapazes jogam - são disparados milhares de tiros contra terroristas. A Internet não é consultada.
A Internet faz-me pensar numa enciclopédia popular e de acesso muito simples - basta clicar para encontrar inúmeras páginas sobre inúmeros temas. Mas quando penso na minha própria escolaridade longe dos computadores e da Internet, lembro-me que raramente utilizei enciclopédias. Lembro-me de um trabalho que fiz no Secundário em que as utilizei. Mas pouco mais. Ou seja, não é de estranhar que um aluno normalíssimo não tenha o reflexo de procurar informação on-line tendo, isso sim, uma visão lúdica da coisa: jogos, música, palhaçadas.
O enlevo pela Internet relativamente à educação dos meninos do básico e do secundário é disparatado. O software pedagógico será sempre mais aborrecido do que executar terroristas ou ouvir música. O computador é lúdico e não é um professor numa sala com 25 ou 28 meninos que vai contrariar a ideia. Os alunos "sabem" mais de computadores do que o professor e ninguém o vai ouvir. Associo sempre o óptimismo ministerial pelos computadores à crítica de Manuel Castells: os governantes elegem os computadores para encher os olhos dos cidadãos porque é muito mais barato e fácil do que resolver os verdadeiros problemas da educação, da saúde, da justiça,...
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
A turma...
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
A greve numa voz popular
Num café um sujeito dizia para o amigo (e para toda a gente na vizinhança de 10 metros, onde calhava encontrar-me): "Isto é uma vergonha, uma vergonha, os professores a fazerem greve! Ganham seiscentos contos para ensinar o aeiou e querem o quê? Trabalham 12 horas por semana para ensinar o aeiou, e ganham seiscentos contos. Seiscentos contos! São os professores que mais ganham na OCDE, só são batidos pelos alemães." E repetia, "para ensinar o aeiou ganham seiscentos contos".
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Greve
Aderi à greve. A economia cresce poucochinho, a retracção demográfica tira alunos ao sistema escolar, Portugal fica malzinho nos PISA periódicos - não é de esperar grandes milagres nas condições de trabalho e de remuneração dos professores. Mas isso não implica que o Ministério massacre os professores com um sistema de avaliação chatinho e de resultados mais do que incertos relativamente à melhoria do ensino.Num dia de luta fica uma palavra de mea culpa: falta profissionalismo no sistema de ensino. O ano passado vi uma professora que não tinha feito greve a insurgir-se contra uma aluna que, ao invés dos outros colegas, tinha aparecido para ter aulas. "O que fazes aqui?", perguntou a professora. A aluna foi despachada rapidamente e a colega regressou à sala dos professores. Este ano, fui recambiado da biblioteca da escola: "senhor professor o que faz aqui?" Perguntou a funcionária, admirada de me encontrar na biblioteca sentado em frente ao computador. "A biblioteca está fechada!". Que eu saiba a greve é apenas dos professores...
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
O impasse da escola actual...
Manifestação
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Reprovações - sim ou não?
Argumentário do não
Numa carta dirigida ao Director do jornal Público inserta na edição de ontem, Santana-Maia Leonardo advoga o fim das reprovações: "(...) as reprovações, pela própria natureza da escolaridade obrigatória, são incompatíveis com um ensino de qualidade e um alto rendimento escolar". Como o nível de conhecimentos dos alunos é miserável, para que a taxa de reprovação não atinja um valor altíssimo, os professores acabam por dar mais notas positivas do que as merecidas. Quem chumba acaba por receber positiva um ou dois anos mais tarde "por antiguidade", embora não evolue nos seus conhecimentos. As notas não revelam os conhecimentos, são "aldrabadas". Pelo contrário, num sistema em que os alunos nunca chumbam, as notas podem reflectir com verdade o desempenho dos alunos. Para terminar a escolaridade obrigatória com nível 3 não bastaria ficar à espera das notas positivas por antiguidade. O Ministério poderia definir apoios a dar aos alunos que reincidissem nos níveis 1 e 2. Em países nórdicos - Suécia, Dinamarca e Finlândia - os alunos não reprovam no ensino obrigatório, independentemente do seu desempenho.
Argumentário do sim
O Jornal de Notícias trazia ontem os depoimentos de duas professoras que se aposentaram recentemente, antecipando o momento da reforma. A Professora Fátima Miranda queixa-se que desapareceu a "humanidade e a criatividade", sendo que a alma da escola morreu - os professores estão "assoberbados de trabalho técnico e burocrático". "Em termos de aula é uma indisciplina total, e quase ninguém fala disso". Os alunos "não respeitam a figura do professor e não têm motivação", sendo que "os professores são pressionados, de uma forma legal, para que os alunos passem e as crianças ficam completamente desmotivadas porque já sabem que vão passar". Para a colega Fátima Miranda, com 38 anos de serviço docente na disciplina de Português, a passagem de ano mais facilitada aumenta a desmotivação dos alunos.
Os depoimentos da Professora Manuela Medina, com 37 anos de serviço na disciplina de História, também apontam para a degradação da prática docente: "há uma indisciplina, uma má-criação e um desinteresse total. Os miudos não têm a noção do que podem dizer e fazer. Aqui, os pais têm muita, muita responsabilidade." A colega não relaciona o trabalho que é possível realizar com os alunos, com a facilidade/dificuldade dos alunos para transitar de ano.
Em que ficamos?...
Numa carta dirigida ao Director do jornal Público inserta na edição de ontem, Santana-Maia Leonardo advoga o fim das reprovações: "(...) as reprovações, pela própria natureza da escolaridade obrigatória, são incompatíveis com um ensino de qualidade e um alto rendimento escolar". Como o nível de conhecimentos dos alunos é miserável, para que a taxa de reprovação não atinja um valor altíssimo, os professores acabam por dar mais notas positivas do que as merecidas. Quem chumba acaba por receber positiva um ou dois anos mais tarde "por antiguidade", embora não evolue nos seus conhecimentos. As notas não revelam os conhecimentos, são "aldrabadas". Pelo contrário, num sistema em que os alunos nunca chumbam, as notas podem reflectir com verdade o desempenho dos alunos. Para terminar a escolaridade obrigatória com nível 3 não bastaria ficar à espera das notas positivas por antiguidade. O Ministério poderia definir apoios a dar aos alunos que reincidissem nos níveis 1 e 2. Em países nórdicos - Suécia, Dinamarca e Finlândia - os alunos não reprovam no ensino obrigatório, independentemente do seu desempenho.
Argumentário do sim
O Jornal de Notícias trazia ontem os depoimentos de duas professoras que se aposentaram recentemente, antecipando o momento da reforma. A Professora Fátima Miranda queixa-se que desapareceu a "humanidade e a criatividade", sendo que a alma da escola morreu - os professores estão "assoberbados de trabalho técnico e burocrático". "Em termos de aula é uma indisciplina total, e quase ninguém fala disso". Os alunos "não respeitam a figura do professor e não têm motivação", sendo que "os professores são pressionados, de uma forma legal, para que os alunos passem e as crianças ficam completamente desmotivadas porque já sabem que vão passar". Para a colega Fátima Miranda, com 38 anos de serviço docente na disciplina de Português, a passagem de ano mais facilitada aumenta a desmotivação dos alunos.
Os depoimentos da Professora Manuela Medina, com 37 anos de serviço na disciplina de História, também apontam para a degradação da prática docente: "há uma indisciplina, uma má-criação e um desinteresse total. Os miudos não têm a noção do que podem dizer e fazer. Aqui, os pais têm muita, muita responsabilidade." A colega não relaciona o trabalho que é possível realizar com os alunos, com a facilidade/dificuldade dos alunos para transitar de ano.
Em que ficamos?...
sábado, 11 de outubro de 2008
Quadros superiores...
O Le Monde de ontem, no suplemento de livros, traz um pequeno artigo sobre Charles Lewinsky, a propósito do lançamento do seu livro Melnitz em França. O livro relata a vida de uma família judia na Suiça entre 1871 e o final da guerra em 1945. A um dado momento o jornalista observa que o autor, no contacto com os leitores nas sessões de promoção da obra, tem o aspecto de um quadro superior, o que contrasta com o seu dia-a-dia quando cuida das courgettes, abóboras e tomateiros na sua horta, em Vereux (Franche-Comté) onde habita. De repente pensei, será que nós, professores, temos ar de quadros superiores? A debandada dos professores relatada recentemente pelos jornais, na demanda de uma reforma longe da Escola, inspira uma resposta negativa. A burocracia asfixiante da "avaliação" também não ajuda.
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